Novo esforço pode devolver ararinha-azul à natureza

O caminho de volta da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) para a natureza é delicado e repleto de obstáculos intermediários. A população total da espécie hoje é de 93 aves, todas criadas em cativeiros, das quais 87 estão em instituições fora do Brasil. No entanto, junto com as fundações estrangeiras que criam os espécimes em cativeiro, o ICMBio articulou um plano para reintroduzir o pássaro ao seu habitat, uma pequena faixa do Sertão que margeia o Rio São Francisco.

Esses números mostram a precariedade da situação da ararinha-azul. A ave está na lista vermelha da IUCN é classificada, desde 1994, como criticamente em perigo de extinção. O plano para seu o retorno à natureza é rico em detalhes, etapas preparatórias e missões para as instituições mantenedoras além da simples cessão de exemplares da espécie.

A Al Wabra Wildlife Preservation (AWWP), do Qatar, é um dos parceiros críticos. Entre as 5 instituições mantenedoras das 80 aves disponíveis para o programa (13 indivíduos estão, hoje, na Suíça e não participarão) possui 60 indivíduos, de longe o maior número reunido de ararinhas-azul. Outro ponto a favor do projeto foi o ingresso de um parceiro de peso. A Vale agora integra o grupo composto pela a SAVE Brasil, ICMBio e Al Wabra.

A chegada da Vale no projeto é comemorada pelo coordenador de manejo para conservação de espécies ameaçadas do ICMBio, Ugo Vercillo. Ele diz que a parceria é a nova filosofia que o ICMBio procura implantar. “O governo sozinho faz pouco. Solitárias, a sociedade organizada e as empresas também. Agora, se todos se juntam, as capacidades são multiplicadas e grandes objetivos podem ser atingidos”, afirma. A diretora de Meio Ambiente da Vale, Gleuza Jesué, destaca o projeto: “Temos todo interesse em contribuir para a pesquisa dessa espécie e a possível reintrodução da mesma em seu ambiente natural”.

A Al Wabra, por exemplo, abraçou a causa das ararinhas desde 2000. Ela possui conhecimento adquirido por uma equipe composta de 2 curadores, 4 veterinários, 5 biólogos e 40 tratadores que trabalham perto da cidade de Al Shahaniyah, no Qatar. A instituição é mantida pelo xeque Saoud bin Mohamed bin Ali Al-Thani, que herdou a coleção do seu pai, o xeque Saoud.

Além da área de 2,5km2 na sede, dedicados a manutenção de 1.955 animais de 90 espécies, a Al Wabra adquiriu a fazenda Concórdia, em Curará, Bahia, local onde foi encontrado o ninho da última ararinha-azul na natureza, em 2000. A fazenda possui 2.380 hectares e poderá se transformar em reserva particular.

Este ano, os biólogos da Al Wabra avançaram na técnica da inseminação artificial sistemática, com apoio da Universidade de Giessen, na Alemanha, e da Parrot Reproduction Consulting, consultoria em reprodução de papagaios que desenvolveu a técnica para a universidade em conjunto com os veterinários e ornitólogos da Al Wabra. Como resultado, 5 filhotes nasceram. “Estão sendo criados à mão”, conta a bióloga da Al Wabra, Monalyssa Camandaroba. A pesquisadora diz que a prioridade número um é o aumento da população em cativeiro, para possibilitar o sucesso do programa de reintrodução no Brasil. “A Al Wabra está pronta para desempenhar um papel importante para alcançar esse objetivo”, garante.

No período reprodutivo do próximo ano, espera-se uma maior quantidade de ovos fertilizados. As fêmeas sem macho vão ser estimuladas por machos estéreis de outras espécies, como Ara severa (Orthopsittaca manilata), para, em seguida, seus ovos serem inseminados com esperma de ararinha-azul. “Não temos como assegurar o sucesso da reprodução assistida, mas vamos aumentar a quantidade de aves estimuladas e ovos inseminados”, disse Monalyssa.

O manejo na reprodução da ararinha-azul possibilitará combinações genéticas, para estabelecer os melhores casais, aumentando a variabilidade dos genes. Outra forma para alcançar o mesmo objetivo é induzir a fertilização de um ovo por dois ou três machos distintos. Ambas as técnicas têm o intuito de melhorar a herança genética desses animais. Vercillo relembra um conhecimento chave sobre a sobrevivência das espécies. “Quanto maior a variabilidade genética, maior a chance de a população sobreviver na natureza”.

Com a mesma intenção, os biólogos da Al Wabra planejam criar um híbrido. Ele fortalecerá o vigor genético das ararinhas-azul em cativeiro. A estratégia, esclarece Monalyssa, é adotada em populações sob risco de extinção. A criação de um filhote híbrido ajudou a melhorar a genética do mutum-de-Alagoas, ave da Mata Atlântica nordestina também extinta na natureza. “Essa ação fortifica o quadro genético”, explica.

No caso da ararinha-azul, o híbrido é essencial, pois todas as que restam espalhadas pelo mundo provêm de um único casal. Logo, a variabilidade genética das sobreviventes é baixa. Nesse caso, a espécie que será usada para produzir o híbrido é a maracanã-do-buriti (Orthopsittaca manilata).

A espécie é bandeira da conservação, que desperta no grande público a necessidade de mantermos nossa fauna, conta Pedro Develey, da Save Brasil. “A ararinha-azul é como o urso panda ou os golfinhos”, compara. O filme de animação Rio, do diretor brasileiro Carlos Saldanha, chamou a atenção para o tráfico internacional de aves com as aventuras de Blu, a ararinha-azul solitária que foi levada ilegalmente para os EUA. Com o anúncio de Rio 2, Develey quer contatar Saldanha para aproximá-lo da causa e – por que não? – para o plano de reintrodução da ave na natureza.

Develey conta que proteger o habitat da ararinha-azul é uma estratégia para proteger todo o bioma. “Estive na Caatinga e, sem grandes rigores, registramos cerca de 120 espécies de aves”, conta. O princípio de unir a salvação da ararinha-azul à conservação da Caatinga é real e consta do sumário executivo do Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-Azul. Prevê-se a criação de unidades de conservação concomitantes ao retorno da ave à natureza. “Vamos discutir com calma sobre essas unidades de conservação, mas podemos imaginar que serão abertas ao público e podem se tornar um atrativo turístico para a observação de pássaros”.

A Save tem vasta experiência no estímulo à observação de aves. Um aspecto que chamou a atenção do diretor da instituição é a boa qualidade do habitat da ararinha-azul. “A Caatinga está toda lá, com todas suas ricas características, inclusive as caraibeiras [tronco de árvore preferido pelas ararinhas]. Encontramos vários outros psitacídeos, como as maracanãs e o papagaio-verdadeiro. Dói saber que está faltando uma espécie, que deveria estar lá, se não fosse a ação dos traficantes de animais silvestres”, diz Develey.

O habitat da ararinha-azul é uma pequena faixa, em uma região quente e semiárida, com precipitação anual na ordem dos 460 mm, concentrados nos meses de dezembro a abril. Curaçá, Bahia, às margens do Rio São Francisco, é o município que tem recebido mais atenções do plano de ação, mas há outros candidatos que também margeiam o velho Chico, como Riacho da Vargem, Riacho Macururé e Riacho da Brígida, esse último em Pernambuco.

O diretor de Cultura do município de Curaça, Fernando Ferreira, explica que na cidade já existe um ânimo favorável para o retorno desses ilustres ex-habitantes. “O prefeito tanto explica para as comunidades mais afastadas a importância das ararinhas, como também sonha com o movimento de turistas e pesquisadores, interessados em vê-las de volta à natureza”, relata. Fernando Ferreira é também autor da música Brincadeiras de arara, que serve de trilha musical para o vídeo Ararinha na natureza, sobre o projeto, disponível no YouTube.

O projeto também buscará medidas compensatórias de intervenções que causam impacto negativo. Um exemplo são os linhões de transmissão de energia elétrica, apontados como potencialmente perigosos para aves. Haverá uma articulação com a agência ambiental baiana para garantir que novas licenças ambientais na região considerem o trabalho.

Por fim, além de oferecer um “lar” para esses psitacídeos de tamanho médio (o corpo da ararinha-azul mede entre 55 cm e 57 cm), é preciso educar e incentivar o homem simples a participar da conservação. O plano procurará envolver a comunidade e fazê-la compreender os benefícios em jogo.

Antes da soltura dos casais de ararinhas-azuis (entre 5 e 10 casais, nos cálculos dos entusiastas do projeto), está previsto, antes, um teste: fazer o mesmo com casais de maracanãs, espécie comum ao mesmo habitat, porém, que não estão em risco de extinção. Investigados os resultados dessa experiência, provavelmente em 2017, estarão cumpridas as etapas essenciais para a reintrodução da ararinha-azul, espécie do sertão de beleza e graça tão raras que a cobiça humana quase pôs-lhe um fim.

Fonte: O Eco

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