Vamos discutir sustentabilidade? O caso da “Brazil nuts” ou Castanha-Do-Pará

Está na TV, na internet, no discurso de políticos e grandes marcas, o intenso uso da palavra sustentabilidade tem banalizado o discurso ambiental.

Nos últimos anos, temos observado o grande aumento de produtos ecologicamente corretos, sustentáveis ou verdes e de fato, muitos o são. O mercado ecológico nunca vendeu tanto como hoje em dia. Em uma rápida ida ao mercadinho da esquina, podemos obervar dezenas de “produtos ecológicos”, como garrafas de vinho produzidos com menos vidro, garrafas pets mais finas e castanha-do-pará colhida por populações locais da Amazônia. Entretanto, veremos que para um produto ser realmente SUSTENTÁVEL não é algo fácil de achar por aí.

Image

O termo desenvolvimento sustentável nasceu em 1987, no Relatório Brundtland, e é definido como “desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras de atender às suas próprias”.

Considerando a descrição de sustentabilidade proposta em 1987, muitos pesquisadores têm estudado que se os produtos que se autodenominam sustentáveis de fato o são. O paraense Carlos Peres e colaboradores, estudou um dos principais produtos verdes do Brasil – nossa castanha-do-pará, internacionalmente conhecida como “Brazil nuts”. Na natureza, os frutos da castanheira (Bertholletia excelsa) servem de alimentos para as cutias, que por muitas vezes enterram as sementes para consumi-las depois e como são uns roedores desmemoriados, muitas vezes esquecem onde enterraram as sementes, que então germinam. Entretanto, com o grande boom do mercado nacional e internacional da “Brazil nuts” pouca coisa tem sobrado para as cutias.

Image

O refedido estudo foi publicado na Science, a mais prestigiosa revista científica do Mundo (Science, 302: 2112-2114, 2003). O estudo foi conduzido de maneira brilhante, em 22 localidades Amazônia brasileira, peruana e boliviana. O estudo comparou a frequência de árvores jovens em localidades com diferentes antiguidades e intensidades de exploração e os resultados são perturbadores: em áreas menos exploradas a proporção de árvores jovens variava de 31 a 76%, em áreas com exploração moderada esse índice variou de 3,8 a 25% e já nas três localidades persistentemente exploradas, a proporção de castanheiras jovens caía para ínfimos 0,7 a 1,6. A conclusão de Peres e seus colaboradores resume tudo com perfeição: “a mensagem clara é que as práticas de coleta de castanha-do-pará  não são sustentáveis a longo prazo”. Por algumas décadas, a produção pode até ser mantida porque as castanheiras vivem e frutificam por muito tempo.

Mas depois que as árvores adultas de hoje morrerem nas áreas exploradas, não há quase árvores jovens vindo depois para substituí-las. Ou seja, a segunda e tranquilizadora parte da definição de sustentabilidade, “sem comprometer a habilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias [necessidades]” acabava de ir para o espaço.

Image

Para que se conheça se uma exploração de recurso natural é realmente sustentável, se faz necessário a realização de muitos estudos sobre os reais impactos dessa atividade na natureza. A expansão do mercado ambiental nos últimos anos é, de fato, um grande avanço no modelo de produção que estamos acostumados a usar, mas vender garrafas pet mais finas está longe de ser uma prática sustentável.

Redação Ambientalistas em Rede

Anúncios

Uma resposta para “Vamos discutir sustentabilidade? O caso da “Brazil nuts” ou Castanha-Do-Pará

  1. Pingback: Vamos discutir sustentabilidade? O caso da “Brazil Nuts” ou Castanha-do-Pará | Homeopatia Brasil·

Sua opinião é muito importante para nós.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s