Frankenstein e os descartados, por Michel Bastos Silva

Nós, cidadãos consumidores, estamos fartos de tanto lixo! Certo? Talvez! Ou melhor, até que ponto? Temos muito a nossa disposição, cada biscoito (ou bolacha) em seu diáfano envelope plástico, mililitros de algum molho em um receptáculo plástico-metalizado, aquele pequeno enfeite para cobrir a carência estética de um cômodo e por ai vai.

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Referindo-me aos produtos que adquirimos àqueles que desejamos (no caso o conteúdo) e o que vem na conta [a(s) embalagem(s)]. Até mesmo por que, muitos não se sentiriam bem se o produto adquirido não estivesse “devidamente embalado”, além do que, alguns produtos são dependentes de uma embalagem com características especiais. Só que, tudo tem um custo, um valor agregado e geralmente pagamos esta conta mais de uma vez e de diversas formas diferentes.

De todas as formas de destinação final de um produto que já perdeu sua função, o descarte no lixo é a solução mais simples. Correto? Não! Por quê? Só esta simples pergunta exigiria uma matéria de algumas páginas, mas tudo bem vamos lá.

Para se ter o clássico lixão precisa-se de uma área grande para o despejo, daí onde se encontra uma área destas, quem estaria disposto a ceder um espaço destes? Quem estaria disposto a bancar um espaço deste? E depois de saturada a área, quem iria recuperá-la? Fora os estudos e impacto e licenciamento. Enfim a solução “mais simples” se torna a pior. Chegamos num ponto crucial, temos uma aberração. Criamos um monstro qual o do Sr. Frankenstein¹. Produzimos e produzimos, depois consumimos e viramos as costas, porque muito do que criamos não tem como ser reaproveitado ou mesmo reciclado e as outras formas, como a incineração, geram resíduos além de serem bem dispendiosas.

E o lixo nos assombra diariamente. Temos “crises do lixo” como a de Nápoles, Itália (2008). Uma solução que eu vejo em longo prazo, bem longo mesmo, é o mesmo aplicado a monstros em filmes de terror. Acredito que os monstros dos filmes são pensados já com uma fraqueza, algo que possa destitui-los de sua posição de indestrutível e ameaçador, já na concepção. Por que isto não se aplica aos nossos bens de consumo?

Temos uma Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei Nº 12.305, de 2 de Agosto de 2010), todavia ela não entra no mérito da substância em si. Sabe-se que nem todo vidro, plástico e papel é reciclável, e os que o são ainda dependem de condições como a não contaminação (até mesmo por areia!). Tendo isso em mente, qual o desafio dos gestores que se empenham na solução para o “lixo”? Eu dou uma alfinetada: brigar com o setor da indústria. E o do consumidor? Essa é fácil: consumo consciente. O que significa que o consumidor precisa conhecer o que está consumindo e que tem um custo e uma complexidade maior do que o divulgado, assim como que o que descarta não é mais só lixo seco ou não, plástico, metal, papel e orgânico, mas sim se é reciclável ou não e se sim, qual o custo disto, qual a possibilidade de ser reciclado. Afinal de contas, ser reciclável não significa que será reciclado.

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Produção de lixo: Cada brasileiro produz 1,1 quilograma de lixo em média por dia. No País, são coletadas diariamente 188,8 toneladas de resíduos sólidos. Desse total, em 50,8% dos municípios, os resíduos ainda têm destino inadequado, pois vão para os 2.906 lixões que o Brasil possui.

Em 27,7% das cidades o lixo vai para os aterros sanitários e em 22,5% delas, para os aterros controlados, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do Instituto Brasileiro de Estatística (IBGE).

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Michel Bastos Silva

Michel é biólogo do Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (INEA-RJ), Mestre em Zoologia (Ictiologia) pelo Museu Nacional/UFRJ e ambientalista.

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