Por que girafas não são prateadas?

por Marcelo Gleiser

Imagine uma pobre girafa prateada. Lá vai ela em meio à seca savana africana, refletindo magnificamente os raios do sol a pino, procurando pelos ramos mais altos dos baobás que despontam em meio à planície. Óbvio, essa situação só é possível em sonhos ou videogames: uma girafa prateada acabaria seus dias jantada por leões. Talvez nem vivesse um dia. Já os peixes oceânicos usam o prateado como camuflagem. Seria lamentável, ao menos para o peixe, se tivesse a cor amarelada com manchas marrons das girafas.

A diversidade da vida é tão fascinante, tão espetacularmente engenhosa, que parece ser produto de um grande arquiteto. Assim se pensava até a segunda metade do século 19, quando Darwin e Wallace propuseram o mecanismo da seleção natural. A idéia, de uma ousadia intelectual como poucas na história da ciência, dizia que nenhum arquiteto era necessário: bastam o acaso e o tempo.

A premissa fundamental da vida é simples: para viver, um organismo precisa de energia. Se essa energia não puder ser retirada do ambiente (como na maioria dos vegetais), precisa ser retirada de outros seres vivos. Portanto, viver é essencialmente procurar por alimento. Nasce aqui a polaridade da presa e do predador.

Uma árvore se alimenta da luz do sol e dos nutrientes no solo. Parasitas se alimentam da árvore. Insetos também, ao mesmo tempo em que usam a árvore como esconderijo contra os animais que gostariam de devorá-los. Para que a árvore sobreviva, precisa captar energia do sol e nutrientes do solo. Ao mesmo tempo, precisa também se proteger dos predadores. Se a árvore crescer demais para captar o máximo de sol, acaba se desequilibrando e cai. Suas raízes não podem se aprofundar muito além de onde jazem os nutrientes do solo. Seu tronco pode enrijecer, mas não a ponto de prejudicar o crescimento. Existe um equilíbrio, um balanço entre forças opostas.

O mecanismo de seleção natural proposto por Darwin e Wallace se baseia na seguinte observação. Dadas as condições ambientais e a dinâmica presa-predador, as espécies mais bem adaptadas são as que conseguem maximizar seus objetivos: encontrar alimentos, multiplicar-se e sobreviver. Portanto, girafas prateadas e peixes amarelos estariam fadados ao fracasso. O mesmo se animais tivessem apenas um olho no centro da testa, péssimo para avistar presas e predadores em direções laterais.

A seleção natural de Darwin e Wallace é hoje complementada pela genética molecular. Quando uma célula se reproduz, precisa duplicar seu material genético. Esse material genético é codificado na seqüência de genes que compõe o DNA da célula, como as contas coloridas de um colar muito longo. O processo de duplicação é extremamente complexo e é passível de erros. Existem mecanismos usados pela célula para evitar erros na duplicação, mas volta e meia eles ocorrem. As razões são várias: desde fatores exógenos, como radiação ultravioleta ou raios X, aos endógenos, falhas bioquímicas. Quando ocorrem erros, o novo DNA não é uma cópia perfeita do original: é um mutante. O importante é que as mutações ocorrem ao acaso, sem um plano ou arquiteto. De fato, mutações em geral causam problemas, doenças que levam à morte ou que pioram as chances de sobrevivência de uma espécie. Em casos raros, podem ser úteis. A girafa com manchas marrons e os peixes prateados são um exemplo. Os insetos que ficam resistentes aos inseticidas ou os vírus a vacinas são outro. A seleção natural ocorre continuamente. E seu único arquiteto é o acaso.

Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro “O Fim da Terra e do Céu”

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Fonte: Evolution Academy

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